A morte presente num local antes muito vivo

Lembro-me que há mais ou menos quarenta e tantos anos atrás, caminhava a pé na madrugada, não tinha carro na época, vindo da Avenida São João até o Jardim da Luz, trabalhava ali próximo. As ruas eram movimentadas nos cruzamentos da Avenida Rio Branco e da Avenida Duque de Caxias. Ah Campos Elíseos, sua região era muito bonita, era um ir e vir de pessoas que desembarcavam ou iam embarcar na Estação Rodoviária e na Estação Júlio Prestes de trens, muita gente do interior chegando assustada pelo movimento da avenida e pelos prédios incrustrados no meio de tantas lojas e bares. Havia muita vida por ali.

Não muito longe, continuando a avenida, estava o prédio do DEIC, lembro-me que um pobre caipira, recém-chegado a São Paulo passava assustado e temeroso, todos os dias, sob o olhar frio da sentinela, esse era eu. Nunca tive um problema sequer durante esse trajeto e eu o fazia todos os dias de manhã e à tarde. São Paulo era mais acolhedora apesar de sua fama de má.

Hoje, ao imaginarmos como está a região, a tristeza nos abate, dá-nos uma sensação profunda de perda, de fim dos tempos. Não tenho mais coragem de transitar pelas cercanias. Pelas reportagens, filmes e fotos que a mídia nos mostra o caos ali se instalou, a degradação do ser humano chegou a seu limite.
Incrivelmente os poderes não encontram maneiras de eliminar esse inferno e restituir à cidade este trecho cancerado bem em seu coração.

O alto consumo de drogas, o narcotráfico correndo às soltas, oculto apenas por tênues barracas. Mas ninguém vê nada, ninguém faz nada e prefeito e governador justificam o caos com programas de recuperação de dependentes com números de resultados inexpressivos. Compradores e venderes de drogas ali instalados e de outras localidades, entram e saem do local sem qualquer policial o molestar.
É triste…

#Disse
Carlos Leonardo

Leia a reportagem abaixo oriunda da Folha de São Paulo

 


 

crac2Tráfico de drogas na cracolândia vende ao menos 100 kg por mêscrac1

EMILIO SANT’ANNA – DE SÃO PAULO – 13/06/2016

Atrás de uma das tantas lonas estendidas na alameda Dino Bueno, uma mulher corta pedras de crack e as coloca em um prato sobre uma mesa, ao lado de uma vela. É uma parte ínfima dos cerca de 100 quilos da droga que irrigam todos os meses a região da cracolândia, na Luz, centro de São Paulo, de acordo com o que a Folha apurou com a segurança pública.

Isso pode render aos traficantes cerca de R$ 1 milhão por mês, arrecadados no bairro e no “fluxo” — quarteirão onde está a jovem, fechado por 250 usuários e traficantes durante o dia e até 500 à noite. Três vezes por dia a via é liberada para ser limpa.

As lonas tentam impedir que se registre a venda da droga. Apesar das ações da prefeitura e do Estado no local, que já chegou a reunir até 1.500 pessoas, a “cena de uso” permanece.

O Denarc (departamento de narcóticos), da Polícia Civil, mapeou a ação do tráfico na Luz. O Estado, porém, não divulga os resultados obtidos “por motivos estratégicos”.

Cracolândia

À Folha, em janeiro, o diretor do departamento, Ruy Ferraz Fontes, afirmou que precisaria de mais dois anos, “no mínimo”, para conseguir desmontar a rede de tráfico local, onde ao menos 40 grupos atuam simultaneamente.

Em 2015, foi preso um traficante responsável por fornecer ao menos 90 kg da droga, que lucrava cerca de R$ 1 milhão bruto por mês.

As pedras de crack têm peso variado — de 0,25 g a mais de 1 grama. A quantidade que entra todos os meses na região é capaz de produzir mais de cem mil unidades. O preço da pedra: R$ 10. Um trago no cachimbo alheio vale R$ 1.

Para o secretário municipal da Segurança Pública, Benedito Domingos Mariano, apesar de ser esta a parte mais evidente da cracolândia, o combate ao tráfico —atribuição do Estado— deve ser feito, prioritariamente, em toda a região da Luz, onde estão os “peixes grandes”. “Qualquer ação dentro do fluxo só tem um nome: fracasso”, diz.

Ações da polícia no local costumam terminar em confronto com os usuários.

A gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem visão e projeto diferentes. O Recomeço recorre a tratamentos que incluem internações.Nesse universo do fluxo, 220 pessoas estão cadastradas pela prefeitura para fazer parte do De Braços Abertos. Criado em 2014 pela gestão Haddad (PT), o programa é baseado na redução de danos, em que o dependente é incentivado a diminuir gradativamente o uso, sem internação e com oferta de emprego e renda.

PESQUISA

O perfil dos beneficiários do De Braços Abertos foi traçado pela Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas. São pessoas com fragilidades sociais que as levaram até ali, diz o antropólogo e consultor do levantamento, Maurício Fiore, que afirma que o programa tem bons resultados.

A maior parte não terminou o ensino fundamental, já fez algum tratamento para o vício e diminuiu o uso de crack após ingressar no programa.

Os problemas: 19% têm tuberculose, 18%, hepatite e 12%, HIV. Além disso, 66% já passaram pela prisão e 25% pelo sistema socioeducativo.

O contato com regras da prisão é útil. Apesar de a droga não ser distribuída pelo crime organizado, ele está presente no fluxo com os “disciplinas”, que mantêm a ordem.

Na noite de quarta-feira (8), fazia 13º C, mas o frio não espanta os usuários. Ali, a jovem, bem vestida, cabelos negros compridos, se destaca entre maltrapilhos. Mesmo assim, a situação dela não é tão diferente. Vende e usa. Assim é para boa parte deles. Vendem, usam, compram mais, voltam a usar. Ciclo sem fim.

Essa dinâmica é vista, em tempo real, em uma televisão na parede do gabinete de Mariano. “Passamos mensalmente as imagens mais importantes para o Denarc”, diz.

A Secretaria da Segurança Pública afirma que o “patrulhamento e a investigação são ininterruptos e que foram 140 flagrantes de tráfico neste ano na região da rua Helvétia e das alamedas Dino Bueno, Cleveland, Barão de Piracicaba e Glete. Em 2015, foram presos 58 traficantes.

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